www.peliculachic.com.br

Aves, vidros e colisões: o que pensam os Arquitetos?

Postado por Pelicula Chic
12 de maio de 2016
Uma vez ou outra trombamos com um vidro. Vidro é  invisível para nós, mas conseguimos encontrar um mecanismo para percebê-lo e assim evitamos o choque. Mas as aves não são hábeis para isso, sendo assim elas não veem o vidro como uma barreira e os choque são frequentes. A American Bird Conservancy estima que  300 milhões para 1 bilhão de aves morrem a cada ano vitimas de colisões com prédios com vidros reflexivos ou transparentes e janelas de casas.

Colisões de aves no Brasil

Aqui no Brasil  não existem muitos estudos sobre colisões de aves com vidros. Um estudo realizado em 2006, sobre o impacto da fachada espelhada do edifício sede da Procuradoria Geral da República, em Brasília mostrou que lá ocorrem 3 colisões a cada dois dias e 1 morte a cada 3 ou 4 dias, são 500 aves trombando e mais de cem morrendo anualmente em colisões com o prédio.

O edifício sede da Procuradoria Geral da República foi projetado por Oscar Niemeyer em 1995 e inaugurado em 2002. Então são 11 anos de funcionamento e 5.500 colisões e por volta de 1.100 aves mortas somente neste prédio. Um único prédio. Mas, devemos lembrar que algumas aves têm hemorragias internas e podem morrer longe do prédio algumas horas depois da colisão.

Arquitetura Amiga das Aves

Uma arquitetura amiga das aves é incentivada em algumas países para reduzir o problema. A solução é simples:reduzir a área reflexiva ou transparente do vidro ou não usar vidro. A medidas para isso podem ser caseiros, sofisticados, baratos ou caros, podem ser adotadas ainda no projeto de construção ou aplicadas mesmo em construções antigas. Um exemplo é o Kunthaus Bregenz na Áustria, onde o arquiteto  suiço Peter Zumthor usou vidro, mas preferiu vidros translúcidos, que deixam entrar luz dentro do prédio sem o perigo do reflexo ou da transparência.

Fachada do Kunthaus Bregenz, na Áustria. Foto Wikipédia.

Detalhe do paineis de vidros translúcidos na faixada do Kunthaus Bregenz na Áustria. Foto: Wikipédia.

O que pensam os Arquitetos?

Entrevista com o arquiteto Guilherme Motta de Oliveira

Aves de Viçosa conversou com o arquiteto Guilherme Motta de Oliveira sobre o uso de vidros na arquitetura e para saber se os arquitetos, aqui na região, estão preocupados com o impacto do uso do vidro na arquitetura sobre a avifauna local. Guilherme Motta de Oliveira é arquiteto formado pela  Universidade Federal de Juiz de fora  e diretor da empresa AuE Soluções, que desenvolve softwares para paisagismo, como oPhotoLANDSCAPE®.

Aves de Viçosa: Prédios de vidro são uma marca registrada da arquitetura moderna. Por que usar vidro?
Guilherme: Antigamente as paredes tinham função estrutural, ou seja, ajudavam a sustentar a edificação. Com o concreto armado as construções não dependem mais das paredes, esta possibilidade trouxe o vidro como uma marca da modernidade e do avanço tecnológico. Antigamente não era possível construir um prédio com uma fachada de vidro.
Um fachada de vidro tem leveza e marca um prédio com um status próprio, normalmente é usada para caracterizar o prédio de uso comercial. A questão mais comum com um “prédio de vidro” está ligada ao conforto térmico, o ambiente fica mais quente nos dias quentes e mais frio nos dias frios. Então o uso indiscriminado de fachadas de vidro leva a necessidade de um sistema de ar-condicionado e aquecimento central que desperdiça muita energia para ser habitável o que atualmente não é recomendado. Estamos na era das construções ditas ecológicas onde a eficiência energética caracteriza a nova modernidade.
Atualmente as edificações mais “modernas” buscam um selo de sustentabilidade como o Green Building Council (http://www.gbcbrasil.org.br) e a conservação de energia é um dos quesitos principais.
Aves de Viçosa: O proprietário que quer usar vidro na fachada precisa usar vidro transparente ou reflexivo?
Guilherme: Não existe regra no uso do vidro em fachadas, o vidro transparente tende a ser menos indicado, pois quem utiliza o espaço dentro da edificação quer privacidade. A não ser que o objetivo seja justamente a transparência, por exemplo, para uma loja de departamentos pode ser importante que as pessoas na rua vejam os produtos expostos no interior da loja. Ou em um restaurante, pode ser que a proposta seja justamente mostrar quem está no ambiente.
Além disto, as edificações devem mostrar sua finalidade este é o conceito de “arquitetura falante”, ou seja, basta olhar um prédio saber se é de apartamentos, de escritórios, um banco, uma igreja, etc. Assim o vidro é uma marca de determinadas finalidades de edificação.
Por outro lado, qualquer edificação é um consenso entre o arquiteto e o proprietário do imóvel. No caso de prédios, o empreendedor determina muitas características da edificação e a função do arquiteto é harmonizar os interesses do empresário, com as normas construtivas vigentes, o conforto das pessoas ao usar o espaço e a forma estética. Normalmente não são soluções simples.
Aves de Viçosa: Vidros são invisíveis para as aves. Prédios de vidro são uma armadilha mortal para elas. Os impactos negativos sobre a avifauna é uma preocupação dos arquitetos brasileiros?
Guilherme: Os EUA possuem muito mais torres de vidro que o Brasil, por vários motivos, até por uma questão de clima, no Brasil conseguimos construir um prédio que pode ser utilizado sem ar condicionado em muitas cidades, nos EUA, é muito mais difícil ou mesmo impossível, soluções de aquecimento e refrigeração muitas vezes são obrigatórias.
No Brasil os prédios de vidro não são tão comuns, mas existe o modismo e a mania de copiar as soluções estrangeiras. Normalmente o excesso de vidro não é indicado para nosso clima, mas o interesse de transmitir status tende a determinar a escolha deste material.
A região da Zona da Mata Mineira por outro lado é carente de profissionais qualificados. Ainda é muito comum que engenheiros civis e até mesmo técnicos em edificações realizem projeto de arquitetura o que deveria ser atividade exclusiva de arquitetos. Não é possível dizer que o uso indiscriminado do vidro seja responsabilidade dos arquitetos, mas com certeza o foco dos profissionais é no conforto humano, nos usuários das edificações. Impactos sobre a avifauna é uma preocupação distante e ainda de poucos profissionais.
Fonte: http://avesdevicosa.blogspot.com.br/2013/10/aves-vidros-e-colisoes-o-que-pensam-os.html

(198)

Comentário

comentários

Deixe uma resposta